Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens

7 maneiras de se tornar popular desenhando

O grande prazer de todo mundo que está começando a desenhar é ter seu trabalho visto por muitas pessoas, porém, essa não é uma tarefa muito fácil já que, com exceção dos seus amigos mais próximos e família, fica difícil encontrar uma maneira de divulgar seus desenhos e se tornar conhecido pelo seu trabalho. Essas dicas simples vão te ajudar a ser lembrado por seus desenhos e te deixar famoso na escola, trabalho ou onde quer que você conviva. Vamos à elas:

1 – Ilustres seus textos
Uma boa maneira de se diferenciar dos outros é trocando os textos por desenhos, ao invés de apenas escrever recados do tipo “volto já”,  crie um personagem ou faça um auto-retrato seu segurando uma placa escrito “Volto já”. Parece uma coisa inútil mas, com o tempo, você vai perceber que ninguém mais vai jogar fora seus recados e mais, alguns colegas vão usar o seu desenho para os recados deles e, quando você menos esperar, seus desenhos estarão espalhados por toda empresa, escola ou faculdade. Seja criativo e objetivo e você vai se surpreender com o resultado

2 – Desenhe pessoas influentes
Se você quiser ficar famoso entre seus colegas de empresa ou escola, faça uma caricatura ou um desenho engraçado do seu chefe ou professor, sem dúvida você vai ficar conhecido rapidamente por isso, independente das conseqüências que o seu desenho irá acarretar, que podem ser basicamente duas:
1 – Se o chefe/professor forem carrascos ditadores, podem odiar seu desenho, aplicar uma bela punição e você se tornar um mártir perante os colegas. Isso pode ser ótimo para sua reputação, mas você pode perder o emprego.
2 – Eles podem adorar seu desenho, enquadrá-lo e divulgar para todos que você é o autor daquela obra de arte. Ótimo para sua reputação e você ainda pode ser promovido…

3 – Surpreenda as pessoas
Essa tarefa exige um pouco mais de confiança no seu traço e uma certa, “cara de pau” pois você vai desenhar pessoas que você nunca viu na vida.
O fato é que, essas pessoas pode ser influentes no ambiente delas e isso faz com que seu trabalho ultrapasse as fronteiras do seu ciclo de amizades, trazendo mais contatos e trabalhos pra você.
A grande vantagem em relação à dica anterior é que, se a pessoa gostar, vai guardar e contar pra todos que ganhou um lindo desenho de um desconhecido. Se não gostar, ela simplesmente vai amassar e joga fora, não vai te prejudicar em nada. Não se esqueça de assinar os desenho e colocar seus contatos atrás ou no canto da folha.

4 – Desenhe em locais públicos
Se você não for “cara de pau” o suficiente para desenhar pessoas desconhecidas, faça seus próprios desenhos em algum local público, um parque, um shopping, supermercado, etc.. Sem você perceber, as pessoas vão parar para ver o que você está fazendo e logo vai ter alguém perguntando quanto você cobra, ou pedindo um desenho, seu contato, etc.. Ah, é bom lembrar de ter sempre em mãos um cartão de visitas, isso dá mais credibilidade e deixa seu trabalho mais profissional.

5 – Use e abuse das redes sociais
Com tantas redes sociais espalhadas pela web, só não mostra o trabalho quem não quer. Facebook, Twitter, Flickr, Pinterest, Deviantart, e tantos outros espaços estão disponíveis para postar e divulgar desenhos e ilustrações.
Você pode usar esses espaços para postar os desenhos que forem feitos baseados nas dicas anteriores. Imagine postar o desenho do professor mais famoso no grupo da faculdade… imagine o sucesso que isso traria. além disso você pode desenhar pessoas famosas e mostrar para os fãs dessa pessoa, desenhe a Angelina Jolie e divulgue no grupo de fãs da atriz, é gente do mundo todo vendo seu desenho. Com o tempo, pessoas vão te seguir, te adicionar, entrar em contato e isso vai gerar um network incrível e, consequentemente, muito trabalho.

6 – Aproveite as datas importantes
Agora que você já percebeu o alcance das redes sociais, é hora de estabelecer uma rotina para que seus seguidores tenham sempre uma novidade para ver e assim atrair mais público e notoriedade para o seu portfolio. Uma ótima dica é aproveitar datas importantes como, desenhar um Papei Noel no Natal ou uma homenagem ao dia das mães, por exemplo. Aliar seu traço á uma boa idéia é o grande segredo para uma postagem se tornar viral e atingir milhões de pessoas.

7 – Tenha sempre um Sketchbook
Ter sempre em mão um sketchbook (caderno de desenho) ou uma pasta com diferentes desenho é sempre bom, a gente nunca sabe quando vai encontrar algo interessante para desenhar ou algum futuro cliente.
Pense nesse material como um kit de sobrevivência e você vai ver como funciona.

Então é isso, são dicas básicas que funcionaram e funcionam comigo e podem funcionar com você também… mas é óbvio que você precisar ter o mínimo de conhecimento em desenho, caso contrário, nada disso vai adiantar, estude e treine muito e, com certeza essas dicas vão te surpreender.

55 coisas que você não sabia sobre a Turma da Mônica

55 coisas que você não sabia sobre a Turma da Mônica Você conhece Jimmy Five, Chuck Billy e Maggy? Se você já leu uma revistinha do Cebolinha, do Chico Bento ou da Magali, é certeza que sim…

1. 18 de julho de 1959 pode ser considerado o dia do nascimento da Turma: foi nesse dia que estrearam as tirinhas do Bidu e do Franjinha na “Folha da Tarde”.
2. O primeiro personagem criado pelo Mauricio de Sousa foi o Capitão Picolé, quando o desenhista ainda estava na escola.
3. O Capitão Picolé nunca teve uma tirinha ou um gibi próprios, mas fez aparições especiais em algumas revistas da Turma, como a especial “Mônica 35 anos” (1998) e a “Lostinho” (2006).
4. A primeira a ganhar uma revistinha foi a Mônica, em 1970.
5. A primeira tiragem da revista da Mônica foi de 200 mil exemplares.
Reprodução
6. Em 1973 foi a vez do Cebolinha ganhar revista própria.
7. Cascão e Chico Bento viraram revistinhas no mesmo ano: 1982.
8. A última a ganhar revistinha própria foi a Magali, em 1989.
9. A família da Magali é de origem nordestina. A avó dela é cearense.
10. Magali é canhota.
Reprodução
11. Pelezinho não foi o único personagem inspirado em um jogador de futebol: em 2006, Mauricio lançou uma revista do Ronaldinho Gaúcho.
12. E em 2013, do Neymar.
13. A Mônica e a Magali foram inspiradas em filhas de Mauricio e o Cebolinha e o Cascão, em amigos dele da turma da infância, em Mogi das Cruzes.
14. Em 1976, Mauricio queria criar um personagem criança inspirado em Pelé. O jogador queria que o personagem fosse adulto, como ele. Mauricio então combinou que os filhos de Pelé desempatariam a contenda. Pelezinho, criança, estreou no mesmo ano.
15. Nos Estados Unidos, o Chico Bento se chama Chuck Billy.
16. Rosinha virou Rosie Lee e Zé da Roça, Cousin Benny.
17. A Turma da Mônica também é publicada nos Estados Unidos. E se chama Monica’s Gang.
18. E o Penadinho se chama Bug a Boo.
19. O Cebolinha virou Jimmy Five, Cascão se chama Smudge e Magali, Maggy.
Reprodução
20. Antes de emplacar suas tirinhas, Mauricio era repórter policial.
21. Mauricio diz que não conseguia ver sangue, então pedia para o fotógrafo que trabalhava com ele se aproximar das cenas de crime e descrever a situação para ele.
22. Os personagens principais das tirinhas que dariam origem à Turma do Chico Bento eram o Zé da Roça e o Hiro, e não o Chico.
23. O nome verdadeiro do Zé Lelé é José Leocádio.
24. Nas primeiras historinhas, o Bidu era cinza.
25. O desenho do personagem foi inspirado na raça Schnauzer.
26. Para criar o Bidu, Mauricio se inspirou em um cachorrinho que ele tinha quando era pequeno.
27. O cachorrinho se chamava Cuíca.
28. Em 2008 veio uma revista com as aventuras da turma adolescente: Turma da Mônica Jovem.
29. E o Chico Bento não ficou atrás: “Chico Bento Moço” estreou em 2013.
Reprodução
Reprodução
 
30. Marcio de Sousa, irmão de Mauricio que morreu em 2011, ajudou a desenhar o Louco e criou o Capitão Feio.
31. O nome do Bidu veio de um concurso feito na redação do jornal onde Mauricio trabalhava.
32. O nome do Sansão, o coelho azul da Mônica, também foi decidido em um concurso, vencido em 1983 pela menina Roberta Carpi, de São Paulo.
33. Nas primeiras histórias, o coelho da Mônica era amarelo.
34. Horácio, o tiranossauro-rex vegetariano, é o único personagem que Mauricio ainda desenha pessoalmente.
Reprodução
35. Originalmente, Nhô Lau perseguia os ladrões de goiaba que atacavam suas goiabeiras dando tiros de espingarda. Segundo o site oficial da Turma da Mônica, “esses atos politicamente incorretos foram banidos das histórias do estúdio”.
36. Logo que surgiram, as histórias de Tina e Rolo se passavam na Bahia, em uma turma de hippies.
37. O nome completo do Piteco é Pithecanthropus Erectus da Silva.
38. O personagem Bugu, cachorro amarelinho sempre disposto a roubar a cena do Bidu, também foi criado pelo irmão do Mauricio, Marcio.
39. O nome verdadeiro do Bugu era Butandor Guglisdécio.
Reprodução
40. Em 1968, o elefante Jotalhão virou garoto-propaganda de um extrato de tomate e sua imagem aparecia nas latinhas do produto. A campanha foi retomada em 2013, depois de 13 anos fora do ar.
41. O Astronauta trabalha para uma agência chamada BRASA - sigla para Brasileiros Astronautas.
42. A cidade-natal dele é Tangará, mas nunca fica claro em que estado ela se localiza.
43. O nome completo do Cebolinha é Cebolácio Júnior Menezes da Silva.
44. O Cebolinha foi criado antes da Mônica: ele nasceu em 1960, e a gorducha em 1963.
45. Os pais do Cascão se chamam Antenor Araújo e Lurdinha Araújo.
46. Os pais da Mônica se chamam Luisa Moreira Fernandes e Luís Rodolfo Castro de Sousa.
47. Desde 2007, a personagem Mônica é embaixadora da Unicef.
48. Mingau, o gatinho da Magali, tem cinco irmãos: Matias, Nestor, Tita, Percival e Lili.
49. Em uma tira de jornal publicada muito antes de surgir em revistinha própria, o Cascão torcia pelo Santos (!).
Reprodução
50. A primeira edição de Chico Bento Moço, que conta as aventuras de Chico Bento indo para a faculdade de Engenharia Agrônoma, teve 150 mil exemplares. E esgotou.
51. A Turma já vendeu mais de 1 bilhão de gibis desde 1970.
52. E tem mais de 3 mil itens estampados com os personagens.
53. O primeiro produto licenciado da Turma foi lançado no mesmo ano da revistinha: 1970.
54. Eram os bonecos dos personagens, licenciados pela empresa de brinquedos Trol.
55. Os quatro primeiros números da Turma da Mônica Jovem venderam 1,5 milhão de exemplares.
Reprodução

LINK

Droit de Regards

Em 1995 a editora Makron Books publicou no Brasil o mágico livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. Um livro teórico sobre quadrinhos escrito em quadrinhos. Coisa fina.

McCloud realiza uma série de considerações sobre as propriedades da linguagem como a construção do tempo, os tipos de transição, a relação de imagens e palavras, entre outros temas. Embora não empregue a terminologia acadêmica, Desvendando os quadrinhos tem um dos capítulos mais felizes que já li para explicar o conceito de semiótica. O exemplo com o quadro de Magritte é genial.
Logo no princípio, McCloud procura definir os quadrinhos de maneira precisa, "estilo dicionário":


Repare que essa definição não exclui histórias em quadrinhos sem texto algum (histórias "mudas") e não há restrição alguma quanto ao tipo de imagem que pode ser empregada.
O principal é a questão das imagens justapostas que permitam ao observador criar entre elas uma relação de significado.
A partir dessa definição, McCloud ainda sugeriu que a linha histórica dos quadrinhos incluísse como exemplos arte pré-colombiana, tapeçarias medievais, monumentos do império romano e pintura egípcia...
Quanto ao tipo das imagens, a arte de uma história em quadrinhos pode ser desenhos preto e branco ou coloridos, realistas ou estilizados, à lápis ou tinta, pintados à aquarela... ou fotografias.
Fotonovelas foram um tipo de histórias em quadrinhos muito populares, no Brasil principalmente entre 1950 e 1970, geralmente relacionadas a enredos românticos e açucarados.
Na França, a fotógrafa Marie-Françoise Plissart realizou uma série de interessantes experiências com fotonovela, explorando as possibilidades narrativas que a combinação das linguagens da fotografia e dos quadrinhos oferecem.
Em 1985, ela publicou o álbum Droit de Regards, uma fotonovela complexa, sem texto algum, que é um verdadeiro deleite visual. Para que vocês possam ter uma ideia, apresento algumas páginas da obra:






Cada figura acima mostra um conjunto de duas páginas do livro aberto.
Repare que a disposição das fotos (ou quadrinhos) na página, corresponde ao layout de uma página de hq tradicional.
O trabalho da autora, sua direção de arte, enquadramento, iluminação, composição dos elementos, é tão fundamental para a construção de significado da obra quanto a relação que se estabelece entre as fotografias devido à sua justaposição, sequência e colocação dentro do gridda página.
São cerca de 100 páginas de narrativa visual, onde nosso olhar se perde em fotografias dentro de fotografias, portas que emolduram portas, espelhos que se refletem infinitamente. Mulheres se amam, casais discutem, pessoas se perseguem. Hipnotizante.
As possibilidades de leitura são diversas e no final há um texto de Jacques Derrida que enriquece ainda mais a experiência do livro. Em 2010, Droit de Regards foi republicado e pode ser adquirido na Amazon francesa.

Trata-se de um material belíssimo e instigante, que merece ser conhecido. Torcer pra que isso seja publicado aqui no Brasil algum dia. Ou apelar pras importações.

A melhor história de Maurício de Sousa: Amizade


Lágrimas hétero escorreram pela minha face. Não se acanhe, compartilhe com seus melhores amigos clicando aqui

Carta aberta aos humoristas do Brasil

Queridos humoristas do Brasil,
Essa carta é minha humilde tentativa de fazer vocês colocarem a mão na consciência.
Pra começar, me apresento.
Sou, ou fui, um de vocês. Durante grande parte da década de 90, escrevi para a Revista Mad in Brazil sob o pseudônimo Xandelon. Cheguei a ser subeditor uma época, publicava quase todo número e escrevi dezenas de matérias de capa sob encomenda. Com esse dinheiro, pagava minhas contas e vivia disso.
Essa matéria de capa, sobre a Feiticeira, é minha. Será que alguém ainda lembra dela?
Essa matéria de capa, sobre a Feiticeira, é minha. Será que alguém ainda lembra dela?
Sei como é um trabalho duro sentar na redação e espremer a cabeça até sair uma piada. Sei como é frustrante achar que a piada está ótima, testá-la com o resto da equipe… e ninguém rir.
Então, aos trancos e barrancos, sem nunca ter sido lá brilhante, posso dizer que já fui sim humorista profissional.

A dura vida do humorista profissional

Em teoria, o humor  é simples: você cria uma expectativa, e depois a subverte.
Para o humor poder existir, são necessários uma série de pressupostos culturais coletivos, compartilhados pelo humorista e seu público que, convenhamos, muitas vezes são sim machistas, homofóbicos, racistas.
A piada “Sabe como afogar uma loira? Coloca um espelho no fundo na piscina!” só funciona porque tanto humorista quanto platéia “sabem” que loiras são fúteis, vaidosas e burras. Se não compartilhassem esse “conhecimento”, não é nem que a piada não seria engraçada: ela faria tão pouco sentido que não seria nem mesmo coerente enquanto narrativa.
Naturalmente, por esse mesmo motivo, o humor é sempre local: para pessoas de outras culturas, com outros pressupostos culturais compartilhados, a historinha também não faria sentido – pois não teriam a chave pra decodificar a piada, ou seja, que loiras “são burras, fúteis e vaidosas”. (Não são.)
Se é pra sacanear alguém, sacaneie os poderosos, e não os subalternos.
Se é pra sacanear alguém, sacaneie os poderosos, e não os subalternos.
Outro dia, a revista norte-americana Wired fez uma matéria de capa sobre humor. Pouca gente sabe, mas existem muitos estudos acadêmicos sérios (sic) sobre o humor, muita gente brilhante tentando entender: porque o engraçado é engraçado?
Enfim, uma das últimas teorias, citadas na Wired, é que o humor viria de uma violação da ordem estabelecida, seja através de dignidade pessoal (tropeçar na casca de banana, deformidades físicas), normas linguísticas (gago, fanho, sotaques), normais sociais (comportamentos inusitados), e até mesmo normas morais (bestialidade, etc), mas que ao mesmo tempo não representasse uma ameaça ao público ou à sua visão de mundo.
Essa última parte é talvez a mais importante: a violação não pode ameaçar ou contradizer a visão de mundo do público, senão ela nem será compreensível.
Usando o mesmo exemplo acima, até dá pra fazer uma piada sem loiras, mas se a sua piada incluir uma loira, ela vai ter que ser burra, mesmo contra sua vontade, pois assim que mencionar “loira” o público já vai imaginá-la “burra“, mesmo se você acrescentar que é uma loira física nuclear ganhadora do Nobel. Nesse último caso, o público certamente pensaria que a piada era justamente sobre como a loira burra conseguiu virar física nuclear ganhadora do Nobel. Mas não dá pra desfazer a associação loira + burra.
Dois em uma: piada de loira portuguesa. E mexendo os dedinhos dos pés.
Dois em um: piada de loira E portuguesa. E mexendo os dedinhos dos pés.
Por outro lado, e é por isso que estou escrevendo essa carta, se é impossível você humorista acabar sozinho com o estereótipo da loira burra, é possível não reforçá-lo:
Basta não fazer piadas de loira burra.
Eu sei, eu sei. O estereótipo da loira burra é até inofensivo. É verdade, algumas das pessoas mais inteligentes que já conheci eram lindas loiras que enfrentavam dificuldades constantes de serem levadas a sério no ambiente de trabalho, mas e daí, né? No cômputo geral das coisas, é um pequeno problema.
Fazer rir utilizando esses estereótipos (a loira burra, o preto macaco, a bicha travesti, etc) é muito fácil. E eu não estou dizendo que vocês não podem não. O país é livre e temos liberdade de expressão justamente para isso.
Mas dá pra fazer diferente, eu peço.
Na verdade, eu desafio.

O machismo mata

Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil, colocando-o no 12º lugar no ranking mundial de homicídios contra a mulher. Uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parte de um homem, em 80% dos casos o seu próprio parceiro. Em 2011, o ABC paulista teve um estupro (reportado!) por dia. Na cidade de São Paulo, uma mulher é agredida a cada sete minutos — além de não ter tempo de fazer nada, essa pobre mulher ainda é agredida no chuveiro, no ônibus, até na privada!
Riu? É, mas não tem graça. A solução está na mão dos homens.
Faça pouco dos poderosos que podem se defender.
Faça pouco dos poderosos que podem se defender.
As mulheres são mortas em tão grandes números, e por seus próprios homens, porque existe uma cultura machista no Brasil, onde as mulheres são vistas como tendo menos valor, onde as mulheres são rotuladas ou como santas ou putas, onde uma mulher viver abertamente sua sexualidade é considerado ofensivo ou repreensível, onde a sexualidade de uma mulher tem impacto direto sobre a honra de seu companheiro.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura machista, que objetificam a mulher, que estigmatizam seu comportamento sexual, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
Você é cúmplice.
(Não deixe de ler, aqui no PapodeHomem, meu texto: Feminismo para homens, um curso rápido.)

O racismo mata

Entre 2002 e 2007, o número de homicídios cujas vítimas eram jovens negros aumentou 49%. De cada 100 mil habitantes, morrem por homicídio 30,3 brancos e 68,5 negros. A probabilidade de ser vítima de homicídio é 12 vezes maior para adolescentes homens e, dentro desse grupo, quatro vezes maior para jovens negros. De cada três jovens assassinados, dois são negros. A população negra teve 73% de vítimas de homicídio a mais do que a população branca.
Os negros são mortos em proporções tão altas, em comparação ao restante da população, porque existe uma cultura racista no Brasil, onde os negros são vistos como tendo menos valor, onde os negros são hiperssexualizados como “negões pauzudos” ou “mulatas rebolantes”, onde o negro é sempre o preguiçoso ou o malandro, o atleta ou o faxineiro, mas nunca (ou raramente) o físico quântico ou o médico, o enxadrista ou galã pegador.
Rárárá! Esse Danilo é ótimo! Só que não.
Rárárá! Esse Danilo é ótimo! Só que não.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura racista, que denigrem o negro (inclusive usar o verbo “denegrir”), que comparam o negro a animais, que classificam o tipo de cabelo característico dos negros de ruim, que associam o negro à pobreza, ao crime, à ignorância e a tudo o que há de mais baixo na escala social, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
Você é cúmplice.

A homofobia mata

Em 2010, foram mortos 260 homossexuais no Brasil, 62 a mais que em 2009 (198), um aumento de 113% desde 2007 (122). Nos EUA, com 100 milhões a mais de habitantes, moram mortos 14. Um homossexual brasileiro tem 785% mais chances de morrer vítima de violência que um norte-americano. As coisas parecem estar piorando: só nos primeiros dois meses de 2012, foram 80 assassinatos confirmados. Mantido esse padrão, teremos 500 homossexuais assassinados até o final de 2012. Nenhum país do mundo mata tantos homossexuais quanto o Brasil.
Os homossexuais são mortos em proporções tão altas, em comparação ao restante da população, porque existe uma cultura homofóbica no Brasil, onde os homossexuais são vistos como tendo menos valor, onde os homossexuais são hiperssexualizados como máquinas de foder sempre prontos para o sexo casual, onde o homossexual é sempre retratado como ridículo, efeminado, exagerado, folclórico, onde a tentativa de ensinar às crianças que homossexualidade é normal é rotulada de “kit gay”, onde a tentativa de dar direitos iguais aos homossexuais é rotulada de “ditadura gay”, onde a pregação de que os homossexuais são pecadores que vão pro inferno é protegida pela “liberdade de expressão”.
Se você faz piadas que confirmam os lugares-comuns dessa cultura homofóbica, que estigmatizam e ridicularizam os homossexuais, que utilizam o homossexual como xingamento como se ser homossexual fosse intrinsecamente ruim, que associam o homossexual ao pecado e à devassidão, ao ridículo e ao nojento, então você possibilita e reforça essa cultura assassina.
Você é cúmplice.
(Não deixe de ler, aqui no PapodeHomem, esse depoimento: “Queria ser hétero, mas não consigo”, editado e comentado por mim.)

Não reclame da “patrulha”

“Patrulha” são soldados armados que podem te matar se você os desobedecer.
Torcer o nariz para as piadas racistas, homofóbicas ou machistas de um comediante não é “patrulha”.
É o público exercendo pacificamente sua liberdade de expressão de considerar babaca um comediante que faça piadas racistas, homofóbicas ou machistas.
Esses pobres humoristas “perseguidos” que reclamam da “patrulha politicamente correta” não estão defendendo a liberdade de expressão: liberdade de expressão de verdade é o cara poder fazer piada sobre mulher estuprada e nós podermos criticá-lo por isso.
Na verdade, a liberdade que querem esses paladinos do “politicamente incorreto” é a liberdade de falar os maiores absurdos sem nunca serem criticados.
Aí é fácil, né? Assim eu também quero.
Nunca vi ninguém não-babaca se dizendo "politicamente incorreto".
Nunca vi ninguém não-babaca se dizendo “politicamente incorreto”.
[E]sse pessoal que ataca minorias pra fazer piada precisa entender é que eles não estão transgredindo nada. Seus tataravôs já eram racistas, gente. Pode ter certeza que seus tataravôs já comparavam negros com macacos. Aposto como seus tataravôs já faziam gracinhas sobre a sorte que uma moça feia teve em ser estuprada. Vocês não são moderninhos, não são ousados, não são criativos. Vocês estão apenas seguindo uma tradição.
Falar besteira, qualquer criança fala.
Adulto é quem sabe que falar significa se abrir para a possibilidade de ouvir a resposta. Adulto é quem entende que ele tem a mesma liberdade de falar que seus críticos tem de criticá-lo.
[O humor] não tem que ter limites. O que a gente tem que ter também é uma crítica ilimitada. O humor tem que ser solto como qualquer linguagem humana tem que ser solta e livre, o que a gente tem é que ter o direito de exercer o poder da crítica sobre isso permanentemente. Então você dizer que uma piada é racista, ou sexista, e argumentar nessa direção, não é censurá-la, é exercer seu direito de crítica.
Tudo que hoje falam do casamento gay era o que falavam do casamento interracial.
Tudo que hoje falam do casamento gay era o que falavam do casamento interracial.
Pra encerrar, amigos humoristas, não esqueçam nunca qual é a função social mais importante da liberdade de expressão:
Sem ela, como saberíamos quem são os idiotas?

Façam pouco dos agressores e não dos agredidos

Não existe piada inofensiva: se alguém gargalhou é porque alguém se fudeu.
A questão é: quem se fode nessa piada?
Se é a vítima, o subalterno, a minoria, a mulher, o gay, o negro, etc, então essa piada é parte do problema. Ela confirma, apóia, sustenta a ideologia dominante. Ela está à serviço do machismo, do racismo, da homofobia.
Quando um gay é agredido com uma lâmpada na Av Paulista, os roteiristas do Zorra Total não podem levantar as mãos e se declarar inocentes. E nem quem assiste e ri.
O "santo" Monteiro Lobato era muito racista - e a Emília também.
O “santo” Monteiro Lobato era muito racista – e a Emília também.
Mas não é necessário vocês humoristas se autocensurarem ou se tornarem vendedores de seguros. Por que não fazer piadas de gays… onde são os homofóbicos que se fodem? Piadas de estupro… onde quem se fode são os estupradores?
Vocês, humoristas, são livres para fazer piadas sobre o que quiserem. Mas também são cidadãos dotados de consciência. Os números da violência contra a mulher são impressionantes. Somos o país que mais mata gays. Nossos jovens negros são vítimas da maioria desproporcional dos homicídios.
A escolha é nossa, tanto humoristas quanto consumidores e repassadores de humor: queremos ser parte da solução ou parte do problema? Queremos estar do lado de quem mata ou estender a mão à quem está morrendo?
Essa discussão não é abstrata. Não estamos falando sobre princípios filosóficos. Tem gente morrendo AGORA.
O humor ajuda a perpetuar o racismo.
O humor ajuda a perpetuar o racismo. Ou a denunciá-lo. A escolha é de vocês.
É muito mais difícil fazer humor sem usar esses estereótipos que confirmam e fortalecem as culturas assassinas do nosso país: a homofobia, o machismo, o racismo.
Será que vocês conseguem? Será que conseguem, ao mesmo tempo, ser engraçados e não ser cúmplice dos assassinatos de mulheres, negros homossexuais.
Sei que não é fácil. Se fosse fácil, eu não estaria pedindo. Se fosse fácil, eu não estaria propondo o desafio.
Mas é tão necessário. É tristemente necessário.
Porque os humoristas alemães que faziam piadas de judeu em 1935 não são inocentes de Auschwitz não.
Fazer rir é relativamente fácil. Difícil é fazer rir sem ser babaca.

Não deixem de assistir o documentário abaixo

Esse texto todo, na verdade, foi só pra apresentar esse documentário. Assistam. Todos os melhores argumentos estão aí. Os melhores comediantes do Brasil. Gente do mais alto gabarito.
Se você acha que a “patrulha do politicamente correto está insuportável”, assista agora.
E depois você me conta.

Link YouTube | “O Riso dos Outros”, magistral documentário sobre humor e politicamente correto, por Pedro Arantes.
* * *
Ah, atualmente, mantenho a minha veia de humorista ainda viva mantendo o tumblr Classe Média Sofre, minha humilde tentativa de fazer “humor do bem”, o que quer que isso seja. Deem uma olhada e me digam como estou me saindo.